O Mundo não será mais o mesmo depois da Pandemia. Ou não.

Sou Fabio Teixeira de Melo, PMP, HCMP. Sou consultor e professor de gerenciamento de projetos e gestão de mudanças organizacionais. Também atuo com projetos de implantação da LGPD em empresas de todos os portes. Para conhecer mais sobre meu trabalho, visite o site da PRO MUTARE em www.promutare.com.br. Lá você vai encontrar meus contatos.

Muito tem se falado sobre o mundo depois da pandemia. Este artigo é um convite ao debate sobre o tema, pois há distintas correntes de pensamento. Em grupos de WhatsApp e diversas mídias sociais vejo gente falando que a Terra está se curando e, da minha varanda, sou testemunha de dias de outono tão límpidos como não via há décadas. Onde moro tem um vizinho que é cantor profissional e nos brindou algumas vezes com audições gratuitas de sua maravilhosa voz. Um dos grupos de empresários com quem me relaciono montou cestas básicas para entregar a quem anda sem opções. São incontáveis as ações solidárias e muita gente diz que estamos diante de uma nova era para o ser humano, uma verdadeira mudança de valores e paradigmas.

O isolamento por conta da pandemia não é só uma mudança imposta; é uma imposição que chegou muito rapidamente.

Interessante acompanhar o processo de transição ao redor do mundo: começamos com a negação, que custou caro a alguns países; passamos pela raiva e contra-atacamos com fake news e acusações; passamos pela barganha para relaxar o isolamento e não destruir a economia; aceitamos e nos adaptamos. Cada país num momento diferente, mas não distantes o suficiente para que haja lições aprendidas. Num autêntico caso de agilismo, vamos aprendendo conforme fazemos e fazendo conforme aprendemos.

No mercado há um pouco de tudo. O conceito de Home Office é bastante antigo e vem sendo praticado, com diferentes intensidades, em todo o mundo. Hoje em dia, com a tecnologia disponível, é perfeitamente possível trabalhar de casa, na maioria dos casos. Não obstante, muitas empresas relutavam em dar esse passo. Por um lado, é sabido que a comunicação pessoal é muito mais poderosa. Encontros presenciais fortalecem conexões e permitem que a comunicação se dê por todos os meios: palavras, gestos, posturas e comportamentos passam a mensagem bem melhor quando usados simultaneamente. Por outro, a cultura de comando e controle e, muitas vezes, a legislação trabalhista faziam com que a adoção do trabalho em casa progredisse a passo lento. Isso até aparecer o COVID-19.

Mesmo as empresas que já praticavam o Home Office foram pegas de surpresa. A implantação do esquema de trabalho em casa requereu adaptações em sistemas, revisão de níveis de segurança, flexibilização de horários e o uso de habilidades que não necessariamente todos possuíam. Uma coisa é o chefe pedir à secretária para chamar o pessoal de TI porque o seu computador está estranho; outra coisa é pedir isso ao filho adolescente. Novamente passamos por um período de transição. A mudança repentina trouxe insegurança psíquica para muita gente. Algumas empresas perceberam a situação e mobilizaram apoio de consultorias em desenvolvimento humano, liderança e até mesmo outplacement para mitigar essa insegurança. Maurício Stelling, sócio da Jornada Executiva, especializada em liderança, tem assessorado alguma dessas empresas. Ele diz que nesta crise “as duas competências mais exigidas das lideranças são assegurar uma comunicação organizacional eficaz, considerando que muitos na empresa podem desenvolver medo pelo cenário de incerteza, e tomar decisões rápidas, dada a volatilidade e complexidade dos problemas que se apresentam no dia a dia”. As empresas que buscaram ajuda especializada certamente estão conseguindo resultados melhores. Mas não foram todas.

Home Office foi um conceito que sempre me atraiu, mas me parecia incompatível com a carreira de projetos industriais: obras acontecem onde acontecem e temos que ir até elas (pelo menos por enquanto). Não obstante, li muitos artigos sobre o assunto, abordando a questão da disciplina com horários, a importância de ter um lugar definido de trabalho e até mesmo o convívio com a família. Outra boa fonte são os livros de escritores e artistas sobre o seu próprio trabalho. Stephen King, em On Writing, conta sua rotina diária para escrever e fazer sua parte nas tarefas domésticas. Entretanto, em todos os artigos e livros que li, nunca encontrei dica sobre o que fazer quando TODA a família está em Home OfficeJoice Vicente, sócia da Carreira em Desenvolvimento, especializada em desenvolvimento humano, aconselha a encarar a família como uma equipe auto-organizada em uma abordagem ágil: “é importante fazer uma reunião, escutar a sua equipe, deixar eles colocarem as necessidades e elencar juntos as prioridades”.

– Se temos um computador para dois filhos, um vai usar às 9h e outro às 14h, eu vou fazer uma reunião à tarde e ninguém poderá me interromper e isso estará planejado no dia, com todos cientes e de acordo – exemplifica Joice.

Ela também recomenda uma breve reunião de manhã para alinhar as prioridades do dia e outra ao final do dia para entender como tudo aconteceu. “Assim a sua nova equipe estará ao seu lado e todos chegarão ao objetivo da empresa e também nos objetivos individuais”. É um bom exemplo de agilidade e resiliência.

Daryl Conner, em Managing At The Speed Of Change, aborda o conceito de resiliência sob um ponto de vista muito interessante. Por Speed of Change ele se refere à taxa à qual uma pessoa ou organização consegue absorver mudanças sem apresentar sinais de disfunção; ou seja, mantendo-se dentro do seu limite de resiliência. Segundo Conner, as pessoas podem enfrentar uma quantidade ilimitada de incerteza e novidade, mas, quando esse montante ultrapassa seu limite de velocidade de mudança, elas começam a demonstrar sinais de disfunção: fadiga, burn out, baixa imunidade, abuso de drogas, entre outros. Ter que trocar toda sua rotina de uma hora para outra, incluindo não só trabalhar em casa, mas não ir mais à academia, não visitar os amigos e parentes, ter seu salário reduzido… todos se aproximaram do seu limite de velocidade de mudança e, infelizmente, vários o ultrapassaram.

Aqueles que não têm um contrato de trabalho estão numa situação particular. Empresários e trabalhadores informais se viram sem mercado e, em muitos casos, obrigados pelas autoridades a fechar as portas. Circula pelas redes sociais um gráfico com as “zonas dos tipos de empreendedores em quarentena”, que aponta as zonas do medo, aprendizado e crescimento. É um gráfico inspirador para a maioria, mas, para quem ultrapassou seu limite, pode ser mais um elemento de pressão: enquanto ele sofre em desespero, as pessoas em volta acham que sair da zona do medo é somente uma questão de escolha. Para empresários e trabalhadores informais, o risco de quebra e a perspectiva da fome influenciam poderosamente o estado de ânimo: trata-se da perspectiva de descer repentinamente ao primeiro nível da pirâmide de Maslow – ao pé do primeiro nível. Quase não há informação sobre o assunto, mas a quantidade de casos de violência doméstica e suicídios aumentou drasticamente, para não falar em alcoolismo, depressão e outras mazelas.

Tanto os episódios de adaptação e superação como os de sofrimento são comuns nas mudanças, principalmente nas da magnitude de uma pandemia. Há diversas formas de atravessar a curva que nos leva do estado anterior à mudança ao posterior. João Vicente Gonçalves, Presidente do HUCMI, chama essa curva de “vale do desespero” e ensina:

“Durante a mudança todos vamos atravessar o vale do desespero; o importante é não acampar nele”.

No vale do COVID-19 alguns estão acampando; outros não querem acampar, mas ficaram sem mantimentos e, se não forem socorridos, vão perecer. Há muitos que já cruzaram e estão adaptados ao novo normal. Em alguns meses seremos capazes mesmo de voltar ao vale e recuperar os que ficaram acampados. Estaremos todos no novo normal. Mas que novo normal será esse? Esta é a pergunta que o artigo propõe para debate.

Uma das etapas mais importantes de uma mudança é sua sustentação.

Não é raro ver empresas investirem tempo e dinheiro para implantar mudanças e elas simplesmente não pegarem. Aquele sistema que foi implantado para eliminar o papel e que agora funciona, mas os funcionários primeiro preenchem a lápis o formulário e depois copiam para o sistema; aquele centro de serviços compartilhados que é implantado pelo presidente da empresa e, quando ele se aposenta, é desmantelado; são inúmeros os casos. E por que trago à baila esses exemplos? Porque uma certeza que temos sobre a pandemia é que ela é transitória. Vai passar. Com o tempo teremos criado os anticorpos e vida que segue. Em outras palavras, é uma mudança que nasce sem sustentação.

Para alguns países, a retração econômica trará um cenário pós-pandemia bastante diferente do anterior; podemos pensar que sim, o mundo mudou para eles. Já para outros, como Brasil e Venezuela, o futuro talvez seja apenas uma versão mais dura de uma realidade que já era difícil. Aprenderemos com essa crise? As empresas estão medindo os benefícios e replanejando seu futuro? Haverá planos de gerenciamento de crises, tanto em nível governamental quanto nas empresas, depois da pandemia? Desse novo normal, o que é que vai pegar e o que não? Nesse caldeirão onde se misturam nossa capacidade de adaptação e nossa resistência à mudança, que caldo resultará?

Artigo retirado do Linkedin do Fabio Teixeira de Melo, PMP, HCMP, consultor e professor de gerenciamento de projetos e gestão de mudanças organizacionais e LGPD.

Escute pelo Podcast:

Linkedin: Fábio Teixeira de Melo

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